Dragon Ball Super: Beerus ignora Daima e bagunça cronologia
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Segundo episódio do remake exibe Kibitokai e reacende a contradição com Dragon Ball Daima, a série que mostrou Shin e Kibito separados após Majin Boo.

O remake Dragon Ball Super: Beerus voltou a colocar Dragon Ball Daima em uma zona cinzenta da cronologia da franquia. O segundo episódio da versão aprimorada do anime de 2015, exibido no Japão em 18 de outubro, trouxe de volta Kibitokai — a fusão entre o Supremo Kaiô Shin e Kibito — e, com isso, contrariou diretamente um dos desfechos centrais de Daima, que mostrou os dois separados após a saga de Majin Boo. A produção é da Toei Animation, estreou em 11 de outubro de 2026 e recompõe as sagas de Bills, Freeza Dourado e do Universo 6 com cenas redesenhadas, novos cortes e efeitos refeitos.
A contradição não é nova, mas ganhou peso porque o remake foi anunciado justamente como uma oportunidade de reorganizar a linha do tempo. Fãs esperavam que a versão aprimorada aproveitasse os novos cortes para amarrar as pontas deixadas pelo último projeto de Akira Toriyama. O que se viu, porém, foi o contrário: a série reforçou o status quo de 2015 em vez de atualizá-lo.
O que o segundo episódio mostrou
Intitulado “O Deus da Destruição vai ao Planeta dos Kaiō”, o episódio acompanha Bills em busca do “Super Saiyajin Deus” que viu em um sonho profético. Com ajuda de Whis e do Peixe Oráculo, o Deus da Destruição localiza Goku no planeta do Rei Kaiô e o confronto começa. A luta foi completamente refeita: a animação inconsistente do episódio 5 de 2015 — um dos momentos mais meme da franquia — deu lugar a uma coreografia mais elaborada, com Bills desviando dos golpes de Goku de olhos fechados e com a postura corporal do personagem reajustada para transmitir superioridade absoluta.
O ritmo também mudou. O que o anime original levou cinco episódios para contar, o remake condensou em três, cortando cenas de preenchimento como o grupo de Pilaf preso em uma ilha e o início da festa de aniversário de Bulma. A escolha agradou parte da crítica especializada, que viu na edição um ganho de coesão narrativa.
Kibitokai: a contradição que vem desde Dragon Ball Z
O ponto sensível está em um detalhe de continuidade. Em Dragon Ball Z, Shin e Kibito se fundem permanentemente com os brincos Potara durante a saga de Majin Boo, dando origem a Kibitokai. Em Dragon Ball Daima, ambientado poucos meses depois desse arco, os dois aparecem separados: a série explicou que encontraram uma forma de desfazer a fusão, e é o Shin “solteiro” quem acompanha Goku na aventura pelo Reino dos Demônios.
O remake, no entanto, mantém Kibitokai em cena desde os primeiros episódios. Para a continuidade, isso significa que, na versão animada de Super, a separação narrada em Daima simplesmente não aconteceu. Como o remake se apresenta como uma recontagem “aprimorada” — e não como um universo alternativo —, a leitura mais direta é a de que a produção optou por preservar o material de 2015 e deixar Daima de fora.
“Dragon Ball Daima havia revelado que, desde a luta contra Majin Boo, o Supremo Kaiô e Kibito encontraram uma maneira de se separar dos brincos Potara, o que levou o Kai a uma nova aventura com Goku. Os primeiros episódios de Dragon Ball Super: Beerus desmentem isso imediatamente com o retorno de Kibitokai ao anime.”
Daima, o último projeto de Toriyama, e o Super Saiyajin 4
Dragon Ball Daima tem um peso que nenhum outro derivado recente teve: foi o último trabalho de Akira Toriyama à frente de história, roteiro e design de personagens antes de sua morte, em março de 2024. A série levou Goku e companhia ao Reino dos Demônios, introduziu o Super Saiyajin 4 na continuidade canônica e ainda deu a Vegeta o Super Saiyajin 3 — transformações que, até então, existiam apenas em GT e em produtos paralelos.
O problema cronológico é evidente: Daima se passa depois de Majin Boo e antes de Batalha dos Deuses. Se Goku já dominava o Super Saiyajin 4 naquele intervalo, por que não o usa contra Bills? O anime de 2015 respondia a essa pergunta de forma bastante explícita — e é aí que o remake mexe no texto.
A linha removida que reabriu a porta
No episódio 5 original, Bills provoca Goku em Super Saiyajin 2 pedindo que ele mostre “tudo o que tem”. Goku então se transforma em Super Saiyajin 3 e afirma que aquela é a forma mais poderosa de um Super Saiyajin. A frase fechava a porta para qualquer transformação superior e, por consequência, empurrava Daima para fora da linha do tempo.
Na versão de 2026, essas falas foram removidas. Bills apenas desafia Goku a convencê-lo de que é realmente forte, e o Saiyajin responde que vai mostrar “o poder de um Super Saiyajin 3” — sem a afirmação categórica de que aquilo seria o seu limite. Em determinado momento, o próprio Bills pergunta se Goku não estaria escondendo mais poder, o que pode se referir tanto ao Super Saiyajin Deus quanto a algo adormecido.
“Em Dragon Ball Super: Beerus, Goku nunca diz a Bills que o Super Saiyajin 3 é a sua forma mais forte, e Bills nunca pede explicitamente que ele mostre ‘tudo’. Isso, por si só, deixa espaço para que o Super Saiyajin 4 de Daima continue existindo ao fundo.”
É uma mudança de roteiro pequena em extensão e enorme em consequência. Ainda assim, ela convive com um problema que o texto não resolve: enquanto Kibitokai estiver em cena, a separação de Shin e Kibito — mostrada e explicada em Daima — segue ignorada. Ou seja, o remake abriu uma porta no diálogo e fechou outra na caracterização.
Duas leituras possíveis (e nenhuma confirmação oficial)
Até o momento, Toei Animation e a Capsule Corp Tokyo não se pronunciaram publicamente sobre como pretendem conciliar as duas obras. Existem duas leituras defensáveis:
- Continuidade elástica: o remake trata Daima como material canônico, mas não se compromete a reescrever cada detalhe visual herdado de 2015. Nesse caso, Kibitokai seria um resquício tolerado, e não uma declaração de intenções.
- Recontagem fechada: o remake vale por si e substitui o anime original como a versão definitiva dos eventos. Nesse cenário, Daima permanece canônico como obra de Toriyama, mas desconectado da linha animada de Super.
A primeira hipótese é mais confortável para o estúdio, mas exige que futuros episódios lidem com Kibitokai de alguma forma — seja ignorando o elefante na sala, seja reescrevendo a fusão mais adiante. A segunda é mais coerente internamente, porém esvazia o esforço declarado de “reconstruir a história” com novos cortes.
Cronologia em disputa: o que está em jogo
Para quem acompanha a franquia, a discussão não é meramente burocrática. A ordem dos acontecimentos define o peso de cada transformação e o modo como o público lê o treinamento de Goku e Vegeta. A tabela abaixo resume o impasse.
| Arco | Posição na linha do tempo | O que introduz |
|---|---|---|
| Saga de Majin Boo | Final de Dragon Ball Z | Fusão de Shin e Kibito em Kibitokai |
| Dragon Ball Daima | Poucos meses depois, por volta do Age 775 | Separação de Shin e Kibito; Super Saiyajin 4 e Super Saiyajin 3 de Vegeta |
| Dragon Ball Super: Beerus | Anos depois, com a chegada de Bills | Kibitokai ainda fusionado; Super Saiyajin 3 como teto aparente |
Vale lembrar que a franquia já conviveu com incongruências desse tipo. A diferença é que, agora, existe um remake em exibição com a missão declarada de reorganizar o material — o que transforma cada escolha de roteiro em uma tomada de posição editorial.
Onde assistir e o que vem pela frente
Dragon Ball Super: Beerus vai ao ar no Japão aos domingos desde 11 de outubro de 2026. No Ocidente, os episódios chegam no mesmo dia a Crunchyroll e Hulu, com lançamento na Netflix no sábado seguinte. A abertura é de MEGATERA・ZERO, e o encerramento fica com VK Blanka.
O projeto não se limita à saga de Bills. O primeiro trailer, revelado em abril de 2026, já indicava a inclusão da saga de Freeza Dourado, e o material divulgado em setembro confirmou também o arco do Universo 6. A ideia, segundo o produtor Akio Iyoku, é apresentar uma versão “aprimorada” do anime, com reconstrução da história e cortes novos e redesenhados.
Para quem quer se situar antes de acompanhar o remake, vale revisitar o guia definitivo da cronologia, sagas e transformações de Dragon Ball Super e o especial sobre Dragon Ball Daima. Os dois textos ajudam a entender por que a fusão de Shin e Kibito se tornou o principal ponto de atrito entre as duas obras.
O que esperar dos próximos episódios
O terceiro episódio deve levar Bills à Terra e abrir caminho para a festa de aniversário de Bulma, momento em que o Deus da Destruição finalmente encontra os guerreiros Z. É aí que o remake terá a chance de mostrar se pretende costurar Daima à narrativa ou seguir adiante sem olhar para trás. Pequenas escolhas — uma linha de diálogo, um flashback, a menção a uma transformação — podem mudar completamente a leitura.
Por enquanto, o saldo é ambíguo. O remake entrega o que prometeu em termos técnicos: a luta contra Bills finalmente tem a escala que a franquia merecia, e a remoção da fala sobre o “limite” do Super Saiyajin 3 foi um gesto de boa vontade com os fãs de Daima. Mas a presença de Kibitokai mostra que a produção ainda não decidiu o que fazer com o legado mais recente de Toriyama — e, enquanto essa decisão não vier, a cronologia de Dragon Ball seguirá sendo um quebra-cabeça com peças sobrando.
Para o público brasileiro, a discussão chega com atraso de poucos dias graças ao simulcast, e deve se intensificar à medida que o remake avançar para os arcos seguintes. Se a intenção é mesmo reorganizar a linha do tempo, o episódio 3 é o primeiro teste real. Se a intenção é apenas repaginar 2015 com visual novo, Daima continuará sendo o capítulo mais recente de uma história que o anime insiste em não contar.
Com informações de ComicBook.com, CBR e do site oficial de Dragon Ball Super: Beerus.





